Equador II – De Mendez a La Balsa (fronteira do Peru)

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Pedalar ao longo do rio Paute com muita chuva

O Idílio está no Equador e conta agora com a companhia de outro português, o Luis. Pode seguir esta aventura no blogue http://bacalhaudebicicletacomtodos.blogspot.com/

Em Méndez a rota volta a inverter-se. Devemos ter atingido o ponto mais baixo e deixaremos a plana bacia amazónica para rumar às montanhas, à cordilheira andina, tendo como destino Cuenca. Tínhamos pensado seguir ainda umas dezenas de quilómetros para sul, pela estrada 45, até Plan de Milagro, 11 quilómetros a sul de Limón, e iniciar aí a ascensão aos andes, mas em Méndez convenceram-nos a não o fazer, especialmente devido ao mau estado da estrada – de terra, pedra e muito degradada com as chuvas, isto para alem de passar de novo acima dos 4000 metros…

Deixámos Méndez manhãzinha, depois de um bom pequeno-almoço – sabíamos que iríamos precisar de muita energia. Os primeiros 5 quilómetros foram suaves, mas foram os únicos do dia. O Luís, quando olhávamos o mapa no dia anterior, dizia com voz satisfeita: porreiro, a estrada segue sempre junto ao rio Paute. Ainda lhe disse que assim era, mas para a nascente… infelizmente as cores do mapa, indicando a altimetria, não deixavam grandes dúvidas.

O rio Paute corria de facto à ilharga, sempre à nossa direita, cada vez mais distante e diminuto. As casas desapareceram rapidamente da paisagem e quando aparecia alguma perdida junto à estrada, não se percebia se estava abandonada ou era habitada. Por vezes, o contador da electricidade cravado numa parede, indiciava que estaria ocupada, mas custava a crer, tal o ar abandonado, degrado e inóspito. A floresta bravia crescia por todo o lado, perdendo-se contra o céu toldado de nuvens, nevoeiro e neblina. Nós arrastávamo-nos montanha acima, rolando por vezes a 4 ou 4,5 quilómetros por hora. O trânsito era escasso e principalmente de camiões. Não tardou muito nós próprios entrarmos dentro das nuvens, perdendo qualquer noção visual do mundo que nos rodeava. Era fácil adivinhar a floresta por todo o lado, mas se o declive da estrada deixou de ser perceptível á vista, às pernas não deixava qualquer dúvida. Com vinte quilómetros percorridos, a fome começou a anunciar-se. Tínhamos bananas, meia dúzia de pequenos croissants e um saco de 12 “pães de hambúrgueres” – que em boa hora comprámos em Méndez . Quando o Luís sugeriu que atacássemos as bananas, ouvi um tropel encosta abaixo – era um homem que descia com o cavalo à ilharga. Chegou à estrada, montou e desapareceu nas nuvens, à nossa frente, ficando apenas o ressoar dos cascos fustigando a estrada, durante um bom par de minutos. Pensei que talvez fosse indício de alguma povoação milagrosa e adiei o almoço de bananas. Mas o silêncio absoluto voltou às nuvens e, pouco depois, lá atacámos o mais frugal almoço nas fronteiras do Equador.

Não tardou que as nuvens desatassem num choro compulsivo, largando grossas lágrimas que não podíamos evitar. O objectivo de chegar a Sevilha de Oro – o primeiro povoado onde poderíamos encontrar alojamento – há muito que estava arreado. Hoje já só esperávamos chegar a Guarumales e que aí houvesse algo para comer e beber. Para dormir, haveríamos de descobrir uma berma da estrada acolhedora. A tarde esgueirava-se velozmente pelo meio das nuvens e da chuva e de Guarumales nem sombra. Mas, algures, apareceu na berma da estrada uma mulher andina, daquelas a quem a chuva não molha, o sol não tisna, o frio não tolhe. Caminhava com passadas curtas, nas suas pernas baixas, saia verde-escuro, camisola rosa, duas longas tranças negras sob o redondo chapéu claro. Perguntei-lhe se não havia uma tienda ou pueblo cerca e disse-me que sim – a 3 minutos!! afirmou. Fossem 3 ou 13, a notícia era a mais desejada do dia. Acho que a estrada era de terra e enlameada, mas já não estou seguro – se não era assim agora, foi-o antes ou depois e sê-lo-ia repetidamente de novo, especialmente no dia seguinte… Poucos minutos depois surgiu do meio das nuvens, primeiro música, intercalada com uma voz masculina ao microfone, depois uma cobertura metálica, depois alguns carros e motas estacionadas e, finalmente, uma “cancha desportiva”. Perguntei à primeira pessoa que vi onde havia uma tienda e indicaram-me o quiosque de apoio ao recinto desportivo. No minúsculo interior havia cerveja, coca-cola, sumo, batatas fritas e umas bolachas. Claro que sonhava com uma sopa ou uns ovos mexidos – para não pensar mais alto – mas contentei-me com o que havia…

Prosseguimos sem destino definido, com as nuvens de chuva por companhia e a estrada de terra enlameada sob as rodas, sempre a subir, sempre a empinar. Poucos quilómetros depois surge, finalmente, uma placa indicando Gurumales, à direita, fora da estrada. Ignorámos a indicação, pois sabíamos que era pouco mais que uma aldeia fantasma, e prosseguimos de dente cerrado. Mas umas centenas de metros adiante, junto à estrada, havia uma, digamos, doçaria! Tinha leite e iogurte, mas o que nos regalou foram umas tacinhas de doce de leite e iogurte “artesanal” com fruta. Adoçámos o estômago e a alma, demos corda aos sapatos e entramos de novo na chuva, nas nuvens e na estrada enlameada, a pique. Numa mistura de suor e chuva, cheguei ao cume da subida e, à direita junto à estrada, apareceu o fantasma de uma casa. Estava em construção, mas já tinha parede e tecto. Foi fácil convencer o Luís que esta era a nossa melhor opção para passar a noite e esperar um dia novo…

Claro que a empregada não varreu o chão e o pó abundava. Claro que a chuva era muita, mas não havia água, nem torneiras, nem ribeira perto. Claro que as janelas deixavam passar o vento forte, o que foi óptimo, pois secou toda a roupa que apanhou pela frente, dando-lhe um tom de pó de cimento, já se vê… claro que o chouriço minhoto, que o Luís ainda tinha no fundo de um alforge, dissipou qualquer réstia de fadiga ou descontentamento; e a bolonhesa knorr, estava de fazer babar um camelo ao fim de um mês sem beber. E não é que ainda tinha duas mangas deliciosas para sobremesa!? Não podia imaginar melhor repasto nem melhor preparação para o dia seguinte!

Choveu abundantemente toda a noite e a água abatia-se ruidosamente sobre o telhado de metal, causando uma sensação contraditória: por um lado, quanto mais chovesse durante a noite, menos prenhas estariam as nuvens no dia seguinte, diminuindo as probabilidades de continuar; mas por outro lado, à medida que a noite avançava sem o temporal dar sinais de abrandar, ia crescendo o receio de que a noite parisse um dia igual…

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