PR GeoRota – Orvalho; Uma aldeia da Beira Baixa

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Inserida no Geopark Naturtejo da Meseta Meridional, esta Pequena Rota contempla a passagem pelos Geomonumentos classificados pela UNESCO, Fraga da água D”Alta e o Miradouro do Mosqueiro.

Texto: Vasco de Melo Gonçalves e JF do Orvalho Fotografia: V.M.G.

Há já alguns anos que não visitava a aldeia do Orvalho, situada na Beira Baixa e muito perto do rio Zêzere. A criação, por parte da Junta de Freguesia do Orvalho, de uma Pequena Rota foi o motivo para voltar a visitar esta zona constantemente devastada por incêndios e com um povoado muito influenciado, ao nível da edificação, pelos seus emigrantes. Contudo, a sua envolvência é muito interessante com uma flora diversificada, pequenas hortas e moinhos que nos transportam a tempos passados.

O percurso

O percurso da GeoRota do Orvalho é linear e começa no coração da povoação. É um percurso com cerca de 8,9 km de extensão e está sinalizado. Estamos perante um percurso diversificado ao nível dos cenários que numa fase inicial cria um diálogo entre o povoado e as suas hortas. Numa segunda fase e para mim a mais interessante, a caminhada desenvolve-se ao longo da ribeira de Água de Alta e da magnífica cascata. No final do percurso, o objetivo é atingir o Mosqueteiro e daí, ter uma visão 360° da região.

A manhã solarenga de um Outono quente convidava a uma caminhada algo saudosista pois, há mais de 8 anos que não visitava esta região. O início do percurso desenvolve-se no povoado que ainda se mantém muito incaracterístico ao nível da arquitetura e um pouco sem alma. Contudo é já visível algumas construções/recuperações onde a pedra da região e a tradição são privilegiadas sendo que, aos poucos, os habitantes se vão aperceber da virtualidade do respeito pelas raízes… Mesmo junto ao povoado temos as hortas que alguns habitantes teimam em cultivar contra uma natureza adversa e a uma terra pouco rica. Aqui, o percurso é mais difícil de seguir devido à remoção de algumas das placas de sinalização do percurso (a consulta/interpretação do folheto é essencial para não tomar a direção errada. No final do artigo, facultamos o percurso para ser descarregado no equipamento de GPS). No trilho certo, o nosso próximo destino é a ribeira de Água de Alta e como já referi, o mais interessante para mim. Caminhamos, a uma altitude de cerca de 420 m, a vegetação altera-se numa zona sombria em permanente diálogo com a ribeira que atravessamos por diversas vezes. Começamos a subir e a cascata é o cenário final deste troço.

Antes do “ataque” ao Mosqueiro, o ponto mais alto (+/- 651 m) deste percurso, caminhamos numa zona de transição com altos e baixos e entre pinheiros. Ao iniciarmos a subida, o cenário idílico e de comunhão com a Natureza altera-se profundamente com o surgimento de um incêndio a poucos quilómetros de distância e muito perto da povoação do Orvalho. A evolução preocupante do incêndio acabou por nos tomar a atenção neste troço! Chegados ao Mosqueiro deparamo-nos com uma infraestrutura de apoio ao visitante composta por mesas em madeira, casa de banho, churrascos, etc. Para quem não conheceu o local anteriormente, o espaço é interessante e muito prático mas, eu conheci e sinceramente não gosto pois o local era um ermo rochoso onde contemplávamos a natureza e sem acesso de carro! É o progresso…

Conclusões e considerações

A GeoRota do Orvalho é uma Pequena Rota muito interessante e um percurso obrigatório para quem quer conhecer uma aldeia da Beira-Baixa. É notório o trabalho desenvolvido pelo Presidente da Junta de Freguesia no sentido de valorizar a sua região mesmo com poucos meios financeiros.

Uma nota menos positiva é a ausência de alojamentos na povoação e de uma restauração que divulgue a cozinha tradicional. Quando estive a fazer este trajetoencontrei um grupo de caminheiro do Clube MileniumBCP que, no final do percurso, teve que se deslocar de camioneta a Oleiros para experimentar a gastronomia da região pois, no Orvalho, não existia nenhum restaurante que confecionasse a especialidade Maranhos por exemplo. Foram cerca de 50 refeições que não se serviram!

Uma outra tarefa mais exigente e de difícil execução é a da reabilitação arquitetónica da povoação. O trajeto ao obrigar-nos a circular pela aldeia mostra-nos uma habitação sem qualidade visual e por vezes degradada. Pode ser que o tempo mude mentalidades e que as pessoas valorizem o seu património!

Data de origem do povoado

Segundo um texto publicado no site da Junta de Freguesia do Orvalho, “…Não se conhece qualquer documento que refira a data da criação da Freguesia de Orvalho. Sabemos apenas que o seu registo paroquial teve início em 1627, mas a sua instituição pode até ser anterior a essa remota data. A sua concretização terá sido obra do pároco de Janeiro de Baixo e terá tido lugar na velhinha ermida dedicada a São Mateus, que passou a desempenhar na altura funções de igreja matriz. O Santo Padroeiro da Freguesia de Orvalho é São Bartolomeu, seu primeiro e único patrono desde a fundação da paróquia. A igreja matriz atual foi construída em 1940 e já sofreu várias restaurações e remodelações, a última das quais em 2007. Mas há muitas capelas com datas anteriores à da igreja matriz”.

Origem do nome

Quanto à origem do nome, a Junta de Freguesia avança com diferentes teorias, “… Até hoje, não se sabe ao certo a origem do nome Orvalho. No entanto, várias pessoas adiantam teorias diferentes, que passamos agora a partilhar convosco:

João Pedro Machado, por exemplo, no Boletim Mensal da Língua Portuguesa – ano IV (n.º 8, Agosto de 1953), diz que “a palavra Orvalho vem de um nome comum a toda a região e transformado em topónimo”, ou seja, quer ele com isto dizer que foi apenas uma palavra usual, que foi adotada pelas pessoas como nome para esta localidade;

Já no Dicionário Contemporâneo de Língua Portuguesa de P. Américo, diz-se que “além do típico orvalho da aurora, existe uma espécie de planta conhecida por ervas do orvalho ou pinheiro-baboso, e outra conhecida por erva-pinheira orvalhada. A primeira pertence à família das Mesembryánthemun, que se encontra nas areias, enquanto a segunda é da família das Drosophyllum Lusitanicum e dá-se nos lugares arenosos, charnecas e pinhais, especialmente no centro e no sul do país”. Esta última parte da sua definição encaixa perfeitamente na zona onde a povoação do Orvalho se encontra, pelo que não será de descartar esta possibilidade;

Por fim, no Dicionário Ecológico “Formar”, de 1982, “orvalho é uma camada de humidade que, sob a forma de pequenas gotas, se deposita nos corpos expostos ao ar livre durante a noite. As árvores, pelas suas folhas, também libertam gotículas de água através dos poros, que acabam por constituir o orvalho”.

Depois da leitura destas três definições, atendendo a que o lugar de Orvalho não fica no litoral, onde se estabelecem ligações com areias, mas fica próximo do rio Zêzere; atendendo a que há uma associação com charnecas e pinhais que, pelas suas folhas, libertam gotículas de água, ainda que pouca, uma vez que são árvores resinosas; atendendo a que toda a rede hidrográfica do Orvalho, bem como as suas primeiras casas, se encontram no fundo da depressão junto à ribeira, o que está de acordo com os princípios da fixação dos primeiros povos; será que podemos inferir que o nome Orvalho está ligado à existência do pinheiro e das ervas-pinheiras orvalhadas supracitadas? Ou será que os grandes mantos de nevoeiro que, ainda hoje, originam grandes orvalhadas devido aos vastos cursos de água existentes na depressão, é que estão na origem do nome desta aldeia? Uma coisa é certa, são duas teorias válidas que, se pensarmos bem, nem sequer se contrapõem, uma vez que pode ter sido a feliz combinação destes dois factos, que levou os antigos a adotar este nome. Existência de uma planta chamada erva-pinheira orvalhada + frequentes orvalhadas matinais = Orvalho. Faz sentido, não faz?”

Informações úteis

Junta de Freguesia do Orvalho: http://www.jf-orvalho.pt/index.php

Bombeiros: 272 680 170

Posto de Turismo de Oleiros

Tel. 272 681 008 / turismo@cm-oleiros.pt / www.cm-oleiros.pt

Folheto com a Pequena Rota: http://www.naturtejo.com/ficheiros/conteudos/pdf/geoturismo/2.7.pdf

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