Life Berlengas: um exemplo de conservação e restauro de um ecossistema insular

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Com o intuito de combater a proliferação de espécies invasoras e potenciar o crescimento das espécies naturais da ilha, o projeto Life Berlengas vai iniciar este mês o controlo das populações de mamíferos invasores, o rato-preto e o coelho. Estas espécies são consideradas pela União Internacional de Conservação da Natureza (UICN) como duas das 100 espécies invasoras mais prejudiciais do mundo. Este é capítulo decisivo para a recuperação do ecossistema da ilha da Berlenga, num esforço pioneiro e marcante na história da conservação de Áreas Protegidas em Portugal Continental.

© Pedro Geraldes

A recuperação dos habitats da ilha da Berlenga é um dos principais objetivos que o projeto Life Berlengas procura alcançar, tentando aproximar este ecossistema das condições que ali existiam antes da presença humana. Neste tipo de habitats, naturalmente isolados pela geografia durante milhares de anos, a evolução das espécies fez-se de forma muito particular: as ilhas são, hoje em dia, autênticos polos de biodiversidade, com espécies únicas que não podem ser encontradas noutros locais do mundo (espécies endémicas), e com espécies nativas que são particularmente suscetíveis à presença de espécies exóticas invasoras.

E o arquipélago das Berlengas não é exceção. A Reserva Natural das Berlengas, que comemorou recentemente o seu 35º aniversário, foi classificada com base nos seus valores naturais, incluindo importantes colónias de aves marinhas, uma subespécie endémica de réptil e três plantas endémicas. Foi ainda reconhecida pela UNESCO em 2011, integrando atualmente a rede mundial de Reservas da Biosfera.

A presença de Espécies Exóticas Invasoras é uma das principais causas de extinção animal e é globalmente considerada como a segunda maior ameaça à biodiversidade, a seguir à fragmentação e perda de habitat. Nesse sentido, as orientações da UICN são claras: “a remoção de espécies exóticas invasoras, novas ou já existentes, é preferível e mais efetiva economicamente a longo prazo, do que o controlo populacional pontual. Onde relevante, deverão ser procurados benefícios significativos para a diversidade biológica através da remoção de espécies de mamíferos predadores de ilhas e de outras áreas isoladas que tenham espécies nativas importantes”. Estas orientações estão de acordo com a legislação nacional e com as políticas de conservação da natureza adotadas pelo estado português.

Esta ação só é possível agora, depois da equipa do projeto Life Berlengas ter promovido, nos últimos 2 anos, o estudo e a caracterização de ambas as populações de mamíferos presentes na ilha, de modo a ter informação base para a definição de um plano operacional com vista à sua remoção, avaliando as metodologias mais eficazes e com um menor impacto no ecossistema. Estes estudos permitiram ainda verificar que, ao nível genético, a população de rato-preto da ilha da Berlenga não apresenta qualquer divergência quando comparada com outras populações e que, em termos evolutivos, o padrão genético observado neste contexto geográfico é consistente com um fenómeno de colonização recente, mediado pelo Homem. No caso do coelho, foi possível detetar sequências genéticas reveladoras de descendência de coelho doméstico (a maioria) e de coelho-bravo.

Uma ação semelhante e já com resultados visíveis decorreu nas Ilhas Scilly, no Reino Unido. Após a remoção da ratazana-preta das ilhas de St Agnes e de Gugh em 2013, o alma-de-mestre, uma pequena ave marinha que estava em declínio desde os anos 1980, voltou a nidificar com sucesso nas ilhas. Para além disso, verificou-se a recuperação não só de outras espécies de aves marinhas nidificantes, como de espécies marinhas subaquáticas. [1]

De acordo com Joana Andrade, coordenadora do Life Berlengas, “hoje é dado mais um importante passo para a recuperação do ecossistema natural da ilha da Berlenga. Há 2 anos atrás, iniciámos a remoção faseada do chorão, uma planta exótica invasora que cobre extensas áreas da ilha não permitindo o crescimento de plantas nativas, e cujos resultados começam a ser bem evidentes com o aparecimento de plantas nativas nas áreas agora desprovidas de chorão. Nesta nova fase do projeto, no seguimento dos estudos realizados e de acordo com as orientações de gestão e conservação da natureza nacionais e internacionais, estamos confiantes que a remoção dos mamíferos da ilha da Berlenga, será um marco decisivo para a recuperação da fauna e flora nativas do arquipélago”. Revela ainda que “a equipa está motivada para fazer história e contribuir para a renaturalização do ecossistema da Berlenga, ao mesmo tempo que se encontra entusiasmada com o forte apoio e contributos recebidos pela comunidade científica e conservacionista a nível nacional e internacional”.

Ao longo dos últimos dois anos do projeto Life Berlengas, mais de uma centena de voluntários e técnicos têm dedicado os seus esforços ao trabalho no terreno e desenvolvido diversas ações de conservação: caracterizando a vegetação, removendo o chorão e promovendo a sementeira de plantas nativas; testando técnicas de controlo da população de gaivota-de-patas-amarelas; construindo ninhos artificiais, acompanhando o sucesso reprodutor das aves marinhas nidificantes e colocando dispositivos de seguimento individual nessas aves para saber onde se alimentam; monitorizando as capturas acidentais em artes de pesca e, juntamente com os pescadores, testando medidas para mitigar os impactes desta atividade; promovendo a divulgação de informação acerca do património natural das Berlengas a quem visita a ilha e conhecendo melhor o perfil desses visitantes.

O Life Berlengas é um projeto coordenado pela SPEA, em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a Câmara Municipal de Peniche, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo ainda a Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (Peniche) do Instituto Politécnico de Leiria como observador.

O projeto, que teve início a 1 de junho de 2014, será implementado até 30 de setembro de 2018 e tem um investimento total orçamentado em cerca de 1,4 milhões de euros, entre os quais um financiamento do Programa LIFE+ da União Europeia de 50% e um forte investimento dos parceiros do projeto dos restantes 50%. Fonte: SPEA

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