PeruII-De Leimebamba a Cajamarca

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Subidas intermináveis e paisagens deslumbrantes

Choveu toda a noite e a manhã não trouxe sinais de melhoria. De impermeável, calças e uns botins de neopren, que se anunciam à prova de água e vento, mas na realidade apenas retardam um pouco a chegada da água aos pés e mantém um pouco mais o calor, deixei o povoado pela estrada de terra, enlameada e a subir, a caminho do alto de calla calla.

Idílio continua a pedalar na América do Sul e nos terrenos difíceis do Peru.

Seriam cerca de 30 quilómetros de subida contínua, até dobrar os 3680 metros. A chuva na era muito intensa, e as dezenas de miúdos que desciam a estrada para a escola, pareciam ignorá-la por completo. Creio que apenas vi dois de guarda-chuva e mais um par de miúdos que partilhavam o mesmo casaco, num exercício curioso: os braços interiores ao longo do corpo e os exteriores enfiados nas mangas, como se fossem siameses… Caminhavam devagar, sós ou em grupos e, invariavelmente, davam os bons dias, detendo-se muitas vezes para nos seguir com o olhar.

O declive não é muito intenso e, não fora a chuva – que desistiu a meio da subida – e o piso pesado, teria sido uma jornada bem agradável, pela orla das encostas verdejantes, onde não faltam vacas pachorrentas pastando e ribeiros ribombando.

Depois de um almoço frugal no cume de Calla calla, onde não faltaram as inseparáveis bananas, duas mangas deliciosas e um pouco de doce de morango, que tornou comestíveis as quatro empanadas de galinha, secas como palha carbonizada, lançamo-nos às nuvens e ao nevoeiro. Infelizmente, do lado ocidental do cume, a visibilidade era praticamente nula, avistando-se pontualmente cumes que perfuravam as nuvens e nesgas de profundos vales de verdes luxuriantes. Há mesmo um miradouro anunciado, que deve proporcionar vistas deslumbrantes… tivemos de nos ficar pela imaginação!

Os 60 quilómetros desde o alto de calla calla até Balsas, na margem do rio Marañón, são de contínua descida. Umas vezes suave, outras alucinantes; umas vezes no meio das nuvens e da neblina, outras com as rodas bem assentes na terra, ora avermelhada, ora esbranquiçada, ora negra, invariavelmente molhada ou mesmo enlameada; umas vezes cruzando pontes arcaicas de madeira, outras sentindo nos pés a água fria dos pequenos ribeiros que passamos a vau; umas vezes debaixo de chuva, outras procurando fugir-lhe; umas vezes com o olhar prisioneiro da estrada, outras prisioneiro das ravinas sem fundo, à distância de um passo (uma roda) em falso, outras, ainda, da louca cadeia montanhosa, que tanto perpassa o céu, como se lança no vazio sem fundo; sentindo sempre a vertigem da estrada, das rectas rápidas e curtas, das curvas sucessivas que se projectam no espaço.

Naquela floresta infinita de cumes montanhosos, uma qualquer curva da estrada presenteia o olhar com uma cordilheira completamente diferente: as formas suaves e a cor verdejante das montanhas, desaparece por completo, surgindo uma cordilheira inóspita, de rocha cinzenta metálica, arestas vivas e picos agrestes. No sopé avista-se uma grossa faixa de água – é o caudaloso rio Marañón.
Perscrutando a montanha para lá do rio, avista-se uma linha ziguezagueante, subindo até desaparecer nas nuvens. Ainda não terminou o dia, ainda não digeri 30 quilómetros de subida contínua e 60 de descida alucinante, ainda não vislumbrei o local onde descansarei umas horas e já me entra pelos olhos e alma adentro o dia seguinte – este carrossel infernal, que tem tanto de fascinante quanto de diabólico; tanto de atracção quanto de repulsivo; tanto de apaixonante quanto de odioso. Mas que não permite um minuto que seja de neutralidade, de indiferença, de vazio. Explode permanentemente no corpo e na alma, catapultando-me sempre para diante, cansando-me tanto ou mais as emoções que o esforço físico…

Balsas é uma rua na margem do Marañón. E na rua que é Balsas, estavam montadas duas redes de voleibol, onde miúdos e graúdos disputavam os pontos com grande alarido. No espaço que medeia os dois “campos” ainda havia espaço para uma partida de futebol entre catraios, pois os maiores jogavam no campo que fica no fim da aldeia, a uns trezentos metros do início…
O único alojamento existente é a hospedaje las palmeras, pelo que a escolha não podia ser mais fácil. Quando perguntamos se há duche, um aceno de cabeça foi a resposta. Parece que houve um “derrumbe” à tarde, provocado pelas fortes chuvas dos últimos dias, tendo levado consigo as redes de água e electricidade… Mas com o poderoso rio à ilharga, a água não faltava. Castanha, da cor da terra que arrasta, lá se arranjaram dois balditos para o duche rápido, na pequena casa de banho às escuras. O jantar, por encomenda, foi comido à luz da vela, não se vendo bem a cor nem o conteúdo. Mas o chá do pequeno-almoço não oferecia dúvidas: a água das canecas parecia já conter a infusão, apesar das saquetas ainda estarem intactas no pires…
A equipa de jovens técnicos, hospedada há quase uma semana na hospedaje, vai regressar a Lima sem realizar o trabalho para o estudo de impacte ambiental da central hidroeléctrica que está planeada a jusante. Iam descer o Marañón em rafts, até ao local de construção da barragem, para recolherem amostras e informação da fauna e flora, mas foram surpreendidos pelo enorme caudal do rio, provocado pelas chuvas recentes. O Daniel, jovem engenheiro florestal, parece debater-se com um problema insolúvel: que valor monetário atribuir às espécies endémicas, exclusivas desta região, que se extinguirão pura e simplesmente com a construção da barragem… o dilema entre o progresso económico e a preservação ambiental, mais uma vez parece insuperável…
Na hospedaje, várias pessoas mostravam-se incrédulas quando dizíamos que íamos para Celendín de bicicleta. Parecia intransponível a cordilheira que tínhamos pela frente…ao que parece, seriam 40 quilómetros de subida ao inferno, em constantes zig-zags, transpondo vários patamares, sem que se visse ou adivinhasse o fim.

Transposta a ponte sobre o Marañón, e percorridas escassas centenas de metros paralelos ao rio, a estrada começa de imediato a subir. A paisagem é árida, com cactos e arbustos desfolhados, de espetos com ar ressequido dispersos pelas encostas agrestes. A estrada estende-se pela encosta fora, desaparecendo numa curva fechada. Ao longe, o olhar abarca uma espécie de anfiteatro semicircular, tocando as nuvens, com duas ténues linhas oblíquas sulcando a “parede” formada pela montanha – são as marcas difusas da estrada distante… mais ao perto, sucedem-se os Ss, as curvas de 180º, as subidas ao patamar seguinte; para trás vai ficando o vale onde corre o Marañón e vai emergindo, do outro lado do rio, o caminho ontem percorrido. Por vezes imagino um espelho, ou as duas faces de uma mesma moeda: a vertigem da descida de ontem inverte-se e estende-se agora aos meus pés, mas a subir. À medida que subo, vai crescendo a panorâmica do vale e das duas encostas simétricas. Olho aquela dimensão inapropriável, olho aquela grandeza incomensurável, olho aquela vastidão desmedida, olho para esta pequena molécula perdida no espaço e desato-me a rir, sem razão definida. Talvez esteja louco, talvez seja da altitude, talvez precise de rir para libertar a emoção ou o medo, ou talvez esteja mesmo extasiado por me encontrar aqui e agora, tocando o infinito, suspendendo o tempo, transpondo o abismo.

É diminuta a presença humana ao longo do caminho, mas quando a montanha abre um pouco a sua carapaça inóspita, surgem algumas casas dispersas. Numa delas, vários jovens empoleirados em árvores colhem guábas para vender. Pergunto-lhes se me vendem uma ou duas e uma moça toda despachada diz, do cimo da árvore, que sim. Ordena a um miúdo que me dê várias e que escolha as melhores. Estende-me umas quatro vagens grandes e recusa persistentemente os três soles que lhe quero dar. A moça insiste para não aceitar, que é “regalo”. E eu insisto que também os soles são “regalo”. Depois de um longo braço-de-ferro, lá aceita as moedas e vai escolher mais guábas para me dar, que partilho com o Luís, entretanto chegado.

Uns quilómetros adiante, uma das escassas casas que avisto, tinha uma ardósia à porta com a parca ementa: borrego guisado e porco frito. Está calor, as energias precisam de ser reforçadas, pois a jornada está a menos de metade, e aproveitamos o que há.
Mais umas curvas transpostas e desponta uma nova encosta, envolta nas nuvens, a vedar o caminho. Definitivamente não sairemos daqui sem transpor as nuvens… Na encosta vêm-se, bem definidos, cinco patamares de estrada em zig-zag. O último desaparece literalmente nas nuvens altas. A progressão é lenta, mas um par de horas mais tarde somos nós que desaparecemos no meio das nuvens, que jogam um estranho jogo de luz e sombra, ora deixando o sol inundar de luz o planalto aos nossos pés, onde não falta meio arco-íris, ora cerrando completamente a cortina branca, reduzindo a visibilidade a escassos metros.

Quando julgava que estava transposta a última barreira, eis que surge do meio do nevoeiro nova inflexão da estrada, continuando a apontar aos céus. O dia ia longo e não desejava, de todo, mais um cume para transpor, até porque as nuvens ameaçavam derreter a qualquer momento, mas as regras do jogo são estas e há que estar sempre disponível para as surpresas! Além do mais, esta última etapa rumo aos céus, ainda tinha dois belíssimos momentos para oferecer…

Pode seguir esta aventura no blogue http://bacalhaudebicicletacomtodos.blogspot.com/

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