Bolívia I – De Copacabana a Uyuni

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Sensação de isolamento

Idílio continua a sua aventura em bicicleta pela a América do Sul e, nesta edição, publicamos as suas experiências quando chegou à Bolívia.Para ler a passagem pela Estrada da Morte e por La Paz: (http://issuu.com/editora_lobodomar/docs/passear_n_5/1)

Apesar de Oruro ser para sul, apesar de o meu mapa de La Paz ter uma setinha na ponta da avenida que se esvai pelo vale, indicando “zona sur”, apesar de me ter deixado deslizar por essa avenida durante largos quilómetros, cruzando toda a cidade pelo meio do caótico trânsito da manhã, o certo é que no fim da avenida há uma bifurcação e nenhuma das vias vai para Oruro! A da esquerda irá para o valle de la luna e a da direita para … El Alto! onde se toma a estrada para Oruro!! Tinha duas alternativas: voltar para trás pelo mesmo caminho, cruzar toda La Paz pelo seu miolo e subir a estrada que desci há uns dias; ou tomar a via da direita, uma espécie de “circular” que atinge El Alto pelos subúrbios de La Paz. Optei pela segunda hipótese, mas devo ter feito quase metade do percurso a pé, tal o brutal desnível da estrada… Impressionam as construções nos locais mais inverosímeis, nas barreiras abruptas com uma inclinação brutal. Dá ideia que com um leve empurrão desaba tudo em bola de neve, só se detendo no fundo do vale…

Só ao meio-dia consegui dar por vencida a subida e atingir El Alto. É verdade que não saí muito cedo do hostal, pois fui surpreendido com o único furo da Bolívia – um simpático vidro incrustara-se no pneu de trás e acabou por dar frutos – mas a média pouco superou os três kms/h…
Atingido El Alto e apontado a sul pela estrada de asfalto, o horizonte torna-se infinito, as rectas intermináveis, a paisagem absolutamente monótona e indiferenciada, praticamente desértica e desabitada. Apenas a linha de comboio vem, de quando em vez, visitar a estrada. Ah, e as máquinas e camiões que estão a construir mais duas faixas, para uma verdadeira auto-estrada… aliás, não percebo para quê, pois, com excepção das imediações de El Alto, o tráfego praticamente resume-se aos camiões das obras. Keynesianismo em acção ou alguma promessa eleitoral, por certo.

Na desoladora paisagem, por vezes surge um pequeno núcleo de construções que presumo abandonadas, tal o ar fantasmagórico das mesmas e da terra que as envolve mas, incompreensivelmente, vê-se o fantasma de uma criança, de um adulto, de uma lama ou alpaca, ou o esqueleto de um cão, movimentarem-se nos escombros.
Patacamaya, Oruro e Chalapata albergam-me a caminho do Salar do Uyuni. Dos três poisos, apenas Oruro é verdadeiramente uma “povoação”. Os outros dois não passam de um aglomerado desregrado e poeirento de feios edifícios, especialmente Chalapata, onde tive sérias dificuldades em conseguir local para dormir, pois estava tudo esgotado – é um importante cruzamento de caminhos…

A decisão estava tomada há muito, não seguiria a estrada para Uyuni mas sim o desvio para Quillacas e Salinas Garci Mendonza, de onde deveria rumar a sul e atingir o extremo norte do Salar do Uyuni. Alguém me referiu que a estrada era perigosa, especialmente pelo enorme e veloz tráfego de contrabandistas que a trilham com carros ilegais que trazem do Chile. Claro que achei mais um exagero, baseado na ignorância e no provável sensacionalismo das notícias, do que motivo de preocupação ou receio.

Pedalo sem sequer um fantasma por companhia

A estrada de asfalto fica-se parada no deserto, sucedendo-lhe a esperada carretera de rípio. No frio gélido da manhã, pedalo sem sequer um fantasma por companhia. Até que repentinamente, entre as 8 e as 9 horas da manhã, a estrada de terra mais parecia uma pista de car-cross ou um trilho do Paris-Dakar. Os carros, invariavelmente sem matrícula, completamente envoltos em nuvens de pó e eles próprios repletos de pó, passavam velozmente, por vezes lado a lado, com o ruído surdo dos motores a contrastar com o chocalhar das suspensões duras, castigadas pelo piso ondulado da estrada. Surpreendentemente, por volta das 9h da manhã nem mais um carro passou e pude pedalar sozinho naquele deserto anunciado, nas imediações do ténue lago Poopo.
Cheguei a Quillacas seria meio-dia, e cinquenta quilómetros percorridos. Era cedo para parar, era tarde para prosseguir, pois Garci Mendoza distava cerca de cem quilómetros e até lá, nada, nem vivalma, só fantasmas, deserto e um caminho que entrou em obras e assim ficou, com um contínuo amontoado de inertes ao centro. Quillacas tem um “albergue turístico comunitário” e, nos degraus de passeio em frente, um carrinho de mão coberto com uma manta abriga uns tachos e panelas com frango guisado – pois claro – arroz e batatas. A tentação – ou a razão – tornou-se irresistível e gozei o sol da tarde na sombra do “quarto”, depois do merecido almoço. Acrescente-se que a diversidade de batatas, e respectivos formatos, na sua terra natal, não pára de me surpreender… hoje as batatas incluíam umas “coisas” negras como carvão e pequenas como castanhas. Perguntei o que era e responderam-me surpresos: “papas negras”!
Os cem quilómetros até Garci Mendoza, apareciam divididos ao meio, no mapa, pelo nome “Tambo Tambilho”. A aldeia lá apareceu saída do nada e na mini-tienda não faltavam uns pacotes de galhetas e a universal coca-cola – agora percebo o que professores me diziam desse milagre coca-cola, ainda o termo globalização não era um lugar-comum… é, de facto, impressionante encontrar no local mais recôndito, mais profundo, mais ausente, mais pobre, onde não há pão, nem leite, nem fruta, nem açúcar, massa ou arroz, coca-cola de várias dimensões – e por vezes light! – empoleirada no sítio mais vistoso da lúgubre tienda…

Qual o caminho para Tahua

Já o lusco-fusco vinha ao meu encontro e o contador se inclinava para a longa centena de quilómetros, calcorreados no duro piso de terra ondulada, quando, aliviado, consegui vislumbrar Garci Mendonza escondida entre colinas, à ilharga do vulcão Thunupa.
Ao deixar Salinas perguntei ao primeiro transeunte que vi, ainda com ar estremunhado, qual o caminho para Tahua. Não que não soubesse a saída correcta, mas para tentar extrair alguma informação adicional da sua reacção. E a resposta foi para não me meter pelo caminho “ocidental” mas sim contornar o Thunupa por oriente, via Jirira, pois o caminho era melhor e menos confuso… mas a minha decisão estava tomada e lá segui o trilho ocidental. Inicialmente o caminho parece inequívoco, mas com o passar dos quilómetros, e à medida que vão surgindo pequenas bifurcações na estrada, começo a ter dúvidas… segundo o mapa, deveria pedalar praticamente sempre rumo a sul, mas o caminho mais “trilhado” inflete bastante para ocidente e até há uma placa indicando Llica. Dois homens carregam “restos” de quinua no esqueleto de uma camioneta especada no meio da planície. Estão longe da estrada mas não encontro melhor alternativa que calcorrear o piso arenoso para perguntar qual o rumo certo. Confirmam que estou no bom caminho, mencionam uma aldeia adiante como referência e regresso à “estrada” mais confiante. Apesar de pedalar à ilharga do Thunupa, o relevo é praticamente plano, mas o piso é arenoso e muito irregular, o que obriga a marcha lenta.

Até à aldeia de Soitoco não tive mais hesitações ou dúvidas, mas logo à saída começaram as interrogações… se o primeiro desvio para a direita ainda me pareceu óbvio, já no segundo comecei por seguir em frente mas, escassas centenas de metros percorridos com a Dempster pela mão, dado o absolutamente intransitável caminho de pedregulhos, voltei ao ponto de partida e tomei o mais suave trilho da direita. Umas centenas de metros adiante, repetiu-se a dúvida – e a cena: comecei por trilhar o caminho da esquerda mas a ligeira subida e péssimo piso induziram-me a regressar e optar mais uma vez pelo da direita. Mas desta vez “estava na cara” que não podia ser este o trilho… confuso? Sim. O meu instinto – porque aqui apenas podia seguir o instinto – dizia-me que qualquer dos dois caminhos que iniciei, e em que voltei atrás, se fundiriam algures na encosta e que essa era a opção correcta, mas o péssimo piso contrapunha-se ao instinto e empurrava-me para o ponto de partida… Como a jornada iria ser “curta”, decidi voltar atrás, a Soitoco, e tirar as dúvidas junto do professor com quem tinha estado à conversa no intervalo das aulas. Perante o alarido dos miúdos, que continuavam na brincadeira, lá esclareci a rota, confirmando que o meu instinto estava a funcionar bem…

Uma visão surpreendente

Mais duas aldeias, uns quilómetros largos de areia, onde tive de empurrar a Dempster e, no fim de uma suave ligeira, desponta o mar branco por entre as curvas suaves das colinas que delimitam, a norte, o Salar de Uyuni. A visão inicial é surpreendente pelo contraste, não pela grandeza, pois apenas se vislumbra uma pequena meia-lua branca, contra a dominante cordilheira castanha. Mas à medida que deixo para trás o cerro e mergulho na pequena aldeia de Tahua, na margem do salar, o enorme mar branco cintila à luz do sol a pique, ofuscando tudo em redor.

Tahua é apenas uma pequena aldeia perdida na fronteira do salar e no sopé do Thunupa mas, gozando desse estatuto, tem um hotel de sal onde me pediram 89 dólares por um quarto… claro que não tinha bolsa para esse luxo e ainda não foi desta que pude temperar o jantar com o pó das paredes. Na aldeia existe um ou dois alojamentos mais “em conta” e pernoitei na hospedagem Mongo’s por 50 bolivianos. Curioso foi regatear o preço do jantar, pois a antipática responsável pela hospedagem pediu-se outros 50 bolivianos para me preparar um jantar. Disse-lhe que era muito, que no máximo podia pagar trinta e ela anuiu prontamente!
Um trio de jovens franceses, com quem me cruzei dois dias antes, cerca de Quillacas, tinha-me dito que havia uns duzentos metros de água na entrada norte do salar e vários quilómetros, por vezes com cerca de meio metro de profundidade, no extremo sul. Foi, portanto, sem surpresa que vi a estrada desembocar num lençol de água, onde o céu azul salpicado de nuvens brancas dormitava, lado a lado com a montanha altaneira, debruçada sobre o espelho de água.

O problema não parecia sério, pois contornando umas centenas de metros pela esquerda, o manto de sal parecia suficientemente sólido para evitar a água salgada nos pés e na Dempster.
Na superfície dura e resplandecente de cristais se sódio, não é visível nenhum trilho definido que cruze o salar, de Tahua à ilha Incahuasi. Mas lançando o olhar para sul, em busca do pequeno ponto escuro que emerge, difuso e tremelicando, acima da linha branca de sal, não há que enganar: só pode ser a pequena ilha de cactos…
Pedalar só no salar, numa etapa em linha recta de mais de 40 quilómetros, no silêncio mais extremo, na absoluta solidão, sobre o infinito manto imaculado, sentindo o deslizar lento das rodas na crosta dura como pedra; pedalar ritmadamente, com o olhar perdido no azul do céu, no branco da “terra”, no contorno difuso da cordilheira distante; pedalar no salar de Uyuni é sair da órbita terrestre, é transpor a barreira das coisas terrenas, é flutuar com as nuvens sem perder o pé, é acariciar o sol sem se queimar, é caminhar sobre o mar sem submergir, é flutuar no espaço sem medo da queda; pedalar no salar de Uyuni é viver temporariamente noutra dimensão…

Em busca da minha ilha

À medida que ia avançando em busca da minha ilha, sentia o piso absolutamente plano alterar a forma, dando lugar a losangos e pentágonos cada vez mais pronunciados, com arestas profundas e fortemente vincadas, o que tornava a progressão não só muito lenta mas dolorosa, num regular saltitar que quebrava as costas e o traseiro – para não falar da Dempster. Por muitas manobras que fizesse para transpor os polígonos de sal nas suas linhas mais suaves, tornou-se demasiado incómoda a cavalgada e decidi caminhar simplesmente com a Dempster pela mão. Na realidade, a jornada pouco excederia os quarenta quilómetros e, mesmo recorrendo todo o percurso a pé, chegaria a Incahuasi a horas decentes para acampar e visitar a ilha…

Se pedalar aquele universo branco me transportava para além da fronteira física do ser, caminhar devagar, passo após passo, sentindo o sal ranger sob os pés, bebendo o sol e as duas cores do universo, é magia, transcendência, simbiose, perfeição cósmica. Parei e deitei-me sob o sal duro, desejei que se eternizassem os momentos, apesar de saber que é no efémero que reside o êxtase e o prazer extremos…
Uma boa dezena de quilómetros percorridos e voltei a cavalgar a Dempster, devagar para saborear, devagar para suavizar o trilho, devagar para viver.
A ilha Incahuasi começava a ganhar forma definida e para trás, e bastante à direita, ficava a ilha Cujiri. À medida que me aproximava da ilha, começavam a surgir rotas definidas no deserto de sal, a maioria no sentindo este-oeste, não tardando a tornar-se visível a actividade turística junto à encosta oeste da pequena ilha, com diversos jipes a chegarem e partirem, como formigas apressadas no carreiro.
A chegada de um ciclista à ilha deve ser sempre motivo de espanto e a minha não foi excepção. Os turistas presentes olhavam-me e comentavam, e um grupo de jovens argentinos não se fez rogado no interrogatório e nas fotografias – para mais tarde recordar. Invulgarmente simpáticos foram os funcionários do pequeno complexo turístico, que me sugeriram logo o local mais abrigado para montar a “carpa”, mesmo encostado ao guichet da venda de bilhetes: os 15 bolivianos da entrada davam-me acesso às casas de banho, campismo e visita à curiosa ilha.
Incahuasi é uma estranha ilha que emerge escassas dezenas de metros acima da imensa planície de sal. Os trilhos que percorrem a ilha brindam-nos com uma impressionante quantidade de cactos, de ar mais ou menos fantasmagórico, que brotam de um solo absolutamente inerte, com aspecto de banco de coral petrificado… É uma visão transcendente, uma composição que rompe a barreira do realismo, apesar de todos os seus elementos serem absolutamente concretos e reais.
Contrariamente aos receios que me vêm incutindo há boas semanas, não senti a noite passada no salar excessivamente fria – ou então talvez os dois sacos cama – um enfiado dentro do outro – tenham o poder calorífico necessário para lidar bem com o frio. Com efeito, em La Paz, depois do alarmismo de diversas pessoas com quem falei, incluindo o Cristian – o homem da casa del ciclista – sobre o frio extremo do salar, que facilmente vai a -20º no período das 3 às 6 da manhã, decidi comprar um segundo saco cama. E agora, com um dentro do outro, sinto-me uma verdadeira salsicha atrofiada naquele colete-de-forças, mas a verdade é que ainda não passei frio durante as noites geladas…
Não tive coragem de sair da tenda a meio da noite, para fotografar a exuberante lua cheia nem as sombras da ilha, como tinha equacionado. Limitei-me a esticar o pescoço fora da tenda e, antes que as orelhas quebrassem, sorver a imensidão daquele manto azul opaco, onde cintilam milhares de estrelas trémulas, sob a batuta de uma lua enorme, alva como o sal que nos envolve.

Ao contrário do dia anterior, não faltam rotas “bem” definidas, com partida da ilha e rumo a oriente. Ainda assim, devo ter-me desviado um pouco para norte, pois apenas um jipe passou à ilharga, durante todo o dia. Os demais carros, incluindo autocarros, seguiam uma rota paralela mas que passava no extremo sul da ilha. Sem vizinhos por companhia e com o piso mais suave que na jornada anterior, pedalei com desenvoltura, rumo à cordilheira distante, onde se destacava um pequeno nevado que me servia de referência.
Para trás, um bocado fora da minha rota, ficou o movimentado hotel do sal, rodeado de jipes e turistas; espreitei os “olhos do salar” – curiosos buracos de pequena dimensão, onde água vítrea espreita por entre paredes de cristais de sal –; e atingi, finalmente, a margem oriental do salar, a tão sublime zona de extracção de sal, junto ao povoado de Colchani, onde diversas famílias se entregam ao árduo trabalho de extracção de sal, num processo absolutamente manual e artesanal…
Uyuni é tão desinteressante quanto o recordava – apenas mais tiendas, mais alojamentos, mais restaurantes, mais agências de viagens, mais turistas, mais gente…
A minha rota “mental”, anteriormente idealizada, não passava por Uyuni. Cruzava o salar de norte a sul, saindo por Kolcha K e San Agustin, sempre para sul, percorrendo o caminho próximo da fronteira chilena, com passagem pelas conhecidas lagunas hedionda, arból de piedra, laguna colorada e laguna verde, junto ao Licancabur, já nas imediações da fronteira chilena de San Pedro de Atacama. Mas a informação repetida de que havia muita água no sul do salar, numa extensão de vários quilómetros e uma profundidade máxima superior a meio metro, levaram-me a rever a rota, optando pelo descrito Tahua-Incahuasi-Colchani-Uyuni. Agora em Uyuni, havia de novo que escolher a rota: contornar o salar pelo sul, para sudeste, via San Cristobal, Villa Alota e, a partir daqui, seguir a “rota das lagunas”; ou prosseguir para sul, para Tupiza. Na minha escolha pesou o facto de já conhecer o primeiro itinerário da anterior viagem à Bolívia, pelo que decidi seguir para Tupiza. A grande desvantagem desta opção é que San Pedro de Atacama, um ponto que não iria perder “por nada”, ficava praticamente fora da rota… a não ser que, de Tupiza, cruzasse todo o sudoeste da Bolívia, talvez o seu território mais inóspito e remoto, até ao parque nacional Eduardo Avaroa, na desejada fronteira chilena.

Idílio / http://bacalhaudebicicletacomtodos.blogspot.com/

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