Na Rota dos Cromeleques dos Almendres

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Ainda o galo não cantava e de Coimbra já viajava a caminho das planícies alentejanas, na companhia do amigo JP, que ao volante da sua viatura nos conduziu à cidade de Montemor-o-Novo a fim de cumprirmos mais uma épica jornada de bicicleta por terras de montado, na véspera de mais uma passagem pelo dia da revolução dos cravos.
Com saída planeada de Montemor, em frente à Praça de Touros e retorno ao mesmo local, este passeio foi destinado a conhecer a região alentejana, entre Évora e Montemor-o-Novo, e os cromeleques dispersos, com enfase para o magnífico sítio arqueológico do Cromeleque dos Almendres, entre outras paragens magníficas que se estendem por este imenso território.
Ao regabofe que já é tradicional, sempre que o grupo se reúne, seguiu-se o alinhar da partida em direcção ao altaneiro castelo medieval de Montemor-o-Novo. A panorâmica que se disfruta do alto é sublime e mais aguçou a vontade de empreendermos, o quanto antes, pedalar por um percurso que se antevia dinâmico e pleno de interesse quer pela morfologia do território, mas, sobretudo, pela qualidade dos seus intervenientes.

Texto e fotografia: António José Soares

A jornada começou com a subida ao ponto mais alto, o castelo.

Montemor-o-Novo, assalto ao castelo
A região de Montemor-o-Novo, de remotíssima ocupação humana, chegou a integrar possivelmente uma fortificação muçulmana. Com o avanço da Reconquista cristã peninsular, a povoação foi conquistada por D. Sancho I, no início do século XIII, estando então praticamente arruinada. Visando o seu repovoamento, essencial à defesa do território, o mesmo monarca outorgou-lhe um primeiro foral logo em 1203, na sequência do qual se terá começado a erguer de novo uma fortificação.

As ruínas do castelo estão em acelerado processo de degradação, sem plano de preservação que salte à vista. O Estado português, governo e autarquia têm obrigação moral e cívica de preservar o património histórico e arquitectónico.

A alcáçova, hoje em ruínas, parece datar ainda desta época. Mas foi com D. Dinis que, à semelhança do sucedido em todo o Alentejo, se efectuaram grandes obras no castelo, incluindo a construção da muralha da vila. No século XIV, no reinado de D. João I, Montemor-o-Novo foi integrado no senhorio doado a D. Nuno Álvares Pereira.
As obras no castelo continuaram ao longo do tempo, sendo de realçar uma intervenção levada a cabo em finais do século XV. O castelo teve seguidamente um papel preponderante no combate à ocupação castelhana e ao longo da Guerra da Restauração, quando D. João IV determinou novo reforço da fortificação, de forma a poder enfrentar as modernas tácticas militares.
Voltou a ser objecto de ataques no início do século XIX, durante as invasões francesas, quando já se encontrava em estado de alguma degradação, acentuada pelo terremoto de 1755, que determinou vários trabalhos de consolidação ainda durante o século XVIII.

A caminho da Ecopista do Montado.

Presentemente, e após aceleração do estado de ruína ao longo do século XX, o castelo conserva essencialmente o lanço principal da muralha dionísia, de planta aproximadamente triangular, protegida por onze torreões cilíndricos, com barbacãs do século XIV. A alcáçova, ou Paço dos Alcaides, já referida como construção de inícios do século XIII, em ruínas, tem planta rectangular e é protegida por duas torres redondas. O acesso faz-se pela muralha a Norte, voltada para a vila, através da Porta da Vila ou Porta Nova, anteriormente conhecida por Porta de Santarém.

O Percurso
Circular, com saída e chegada ao mesmo local: a Praça de Touros de Montemor-o-Novo; numa extensão de cerca de 100 km, pela Ecopista do Montado, em direcção a Santiago do Escoural, Casa Branca, Filhardeira, Defesa, Nossa Senhora da Boa Fé, Cromeleque dos Almendres, Menir dos Almendres, Nossa Senhora da Guadalupe, Barragem dos Minutos e passagem sobre o rio Almansor, para finalmente se regressar ao local da partida.
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Ecopista do Montado, na antiga linha férrea.

“Rota dos Cromeleques” – Track gravado por Catarina Silva, em 24/04/2017

Após a descida do castelo, prosseguimos pela Ecopista do Montado que surgiu da reconversão do antigo ramal ferroviário Torre da Gadanha – Montemor-o-Novo, ramal da linha ferroviária que ligava Torre da Gadanha, estação pertencente à Linha do Alentejo, à cidade de Montemor-o-Novo, com cerca de 13 km, com apenas uma paragem no Paião.

A tradicional foto de grupo, com representantes de Coimbra, Coruche, Lisboa, Figueira da Foz, Arruda dos Vinhos e Alhos Vedros-Setúbal.

No antigo canal ferroviário, convertido em ciclovia, estão patentes ao longo do caminho alguns vestígios ferroviários, como um edifício de uma antiga estação, o antigo apeadeiro de Paião, a ponte sobre o rio Almansor e o edifício de passageiros da estação de Montemor-o-Novo.

Em perseguição à primeira fuga do dia.

No antigo apeadeiro do Paião, o grupo, alinhou para a fotografia da praxe: António, João, Paulo Monteiro, Manuel, Katu, Catarina, Marco, Rui Salgado e Gustavo Baeta, o momento de captação do instantâneo serve sempre de desculpa para a reinação e descontracção. Seguimos novamente o percurso delineado, usufruindo da espectacularidade que a região proporciona pelas suas características, de beleza natural, com paisagens magníficas.

Santiago do Escoural.

A rota foi bastante agradável de prosseguir, em ritmo lento, mas adequado às circunstâncias, uma vez que passeios em grupo, com objectivo primordial de apreciar as maravilhas paisagísticas são indissociáveis ao salutar e bom convívio. Os aglomerados populacionais que encontrámos foram escassos.

Manuel Cordeiro, vencedor da primeira meta volante.

Assim, acabou por vir mesmo a calhar a primeira paragem em Santiago do Escoural, onde reabastecemos de água e tomámos o café da praxe. Por esta altura já um elemento do grupo apresentava alguns sinais de indisposição e embora o percurso não apresentasse dificuldades de maior, foi decidido que o melhor seria regressar ao ponto da partida, assim que chegássemos ao primeiro cruzamento com a EN 2, uma vez que ainda faltava cumprir uma grande parte do percurso.

Rui, Marco, Paulo, Gustavo, Manuel e Catarina.

Continuando a pedalar entre herdades, tendo por companhia de viagem ora gado bovino, ora gado suíno, embora com menos frequência, a presença de bonitos animais de raça equina também se fazia notar. Neste passeio uma constante foi o abrir e encerrar cancelas, precisamente para não permitir a fuga de nenhum animal.

Com as cores da Primavera.

E as bicicletas, veículos de tracção animal, já reclamavam uma pausa para descanso, face ao imenso trabalho que têm vindo a ser submetidas. Assim, ainda antes de chegar ao ponto principal do passeio, o recinto megalítico dos Cromeleques dos Almendres, decidimos que as imediações do pitoresco santuário de Nossa Senhora da Boa Fé seria o local adequado para descanso de animais e máquinas. Deste modo, acabou mesmo por ser na galilé da igreja, que improvisámos uma sala refeições, a contento de todos.  Restabelecidos e prontos para nova etapa, prosseguimos na direcção do recinto megalítico dos Almendres, através das extensas propriedades agrícolas.

Recinto Megalítico dos Almendres
Este sítio arqueológico é composto por diversas estruturas megalíticas: cromeleque, menir e pedras, pertencendo a primeira ao denominado “universo megalítico eborense”, com nítidos paralelos noutros cromeleques, como no caso da Portela de Mogos, em Montemor-o-Novo.

O Cromeleque dos Almendres.

O cromeleque foi descoberto pelo investigador Henrique Leonor Pina, em 1964, quando se procedia ao levantamento da Carta Geológica de Portugal. Abrangendo uma larga faixa cronológica, desde o Neolítico Médio até à Idade do Ferro – i.e., desde finais do 6.º até inícios do 3.º milénio a. c. -, este sítio apresenta, entre outros elementos, um cromeleque de planta circular irregular, composto por cerca de noventa e cinco monólitos graníticos, colocados em pequenos agrupamentos, numa área de, aproximadamente, 70 x 40 m, com uma orientação NW-SE.

Cromeleque dos Almendres.

Em relação aos monólitos propriamente ditos, eles possuem, no seu conjunto, forma almendrada, alguns de consideráveis dimensões, com cerca de 2,5 m de altura, apesar da preponderância dos de pequenas dimensões. Relativamente à sua decoração, verifica-se a presença nalguns destes monólitos das denominadas “covinhas” ou linhas sinuosas e radiais. Alguns deles, pelo seu posicionamento estratégico no seio de todo o conjunto, parecem assumir o papel de autênticos “menires-estelas”.

Menir do Monte dos Almendres.

A maior parte destes noventa e cinco monólitos encontrava-se apeada até serem recolocados na sua primitiva localização por uma equipa de investigadores coordenados por Mário Varela Gomes, que teve o especial cuidado de identificar.

Cromeleque do Vale Maria do Meio.

O Menir do Monte dos Almendres é um dos muitos menires da região de Évora. Tem a forma de um ovo alongado e tem um báculo ou cajado, gravado em baixo-relevo na parte de cima. Este motivo representa, claramente, a importância da natureza no neolítico, nomeadamente a domesticação de animais.
Encontra-se implantado no topo da encosta na Herdade dos Almendres, freguesia de Nossa Senhora da Tourega, cerca de 1 Km a su-sueste do Cromeleque, na mesma herdade. Foi reerguido pelo seu proprietário, embora se suponha que a sua localização original não deveria encontrar-se muito longe da actual. Fica portanto bastante perto do Cromeleque dos Almendres e ambos estão intimamente relacionados. Visto a partir do cromeleque, o menir indica o nascer do Sol no Solstício de Verão, o maior dia do ano.

O Manel em estilo competição, na margem da Barragem dos Minutos, do rio Almansor.

Trata-se de um sítio cultural, com forte carga mágico-simbólica, que denuncia um exemplo singular de reutilização de um mesmo espaço sacralizado ao longo dos tempos. Reflecte, também por isso, as próprias transformações económicas, sociais e ideológicas ocorridas nesta larguíssima faixa temporal e neste que é considerado, até ao momento, o maior conjunto de menires estruturados da nossa península, e um dos mais relevantes do megalitismo europeu.

António, “em perseguição ao fugitivo Manel, na Barragem dos Minutos”

Estávamos na parte final da extensa, extenuante e não menos fantástica jornada, prosseguimos por Guadalupe, em direcção a Montemor-o-Novo, com tempo ainda para ver o cromeleque do Vale Maria do Meio, mais pequeno que o dos Almendres, e embora relativamente próximo do cromeleque da Portela de Mogos, prosseguimos no sentido da Barragem dos Minutos e do rio Almansor, uma passagem que acrescentou uma tónica diferente ao passeio, pela diversidade paisagística marcada pela presença da água. Aqui chegados, e um pouco extenuados, aproveitámos a tranquilidade do local para a última pausa antes do final de jornada.

Epílogo
Entre ciclovias, caminhos, estradas nacionais e municipais, estradões de terra e franjas de território dedicadas à exploração agrícola e criação de gado, cumprimos cerca de 100 km, os quais usufruímos de forma plena, uma jornada fantástica que nos permitiu também conhecer locais com história, como o Castelo de Montemor-o-Novo, em ruínas, e um sítio arqueológico, raro no mundo, do período neolítico médio à idade do ferro, que vale a pena visitar.

 

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