À descoberta dos Chafarizes de Lisboa (I)

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A empresa EPAL comemora, em 2018, 150 anos de existência. Ao longo das próximas edições iremos dedicar uma série de caminhadas à descoberta do património relacionado com o abastecimento de água à cidade de Lisboa.
Os chafarizes faziam parte desta rede de distribuição e, só por si, merecem a nossa atenção. Para além disso, ao criarmos estes percursos vamos conhecer também uma cidade de Lisboa em grande transformação. Uma nota menos positiva para o estado de manutenção dos chafarizes.
O percurso que hoje apresentamos é circular e tem uma extensão de aproximadamente 5 800 metros.

Fotografia: Vasco de Melo Gonçalves
Textos: C.M. de Lisboa

O Antes
Para compreendermos o verdadeiro impacto da criação de uma empresa destinada a levar água a casa dos lisboetas, é necessário, em primeiro lugar, percebermos como era o dia-a-dia da população antes.
Lisboa nunca, ou quase nunca, conheceu a abundância de água. Não foram raras as vezes que se encontrou perante uma alarmante penúria de tão precioso elemento. É também necessário entender que o ritmo de crescimento da população, o progresso dos seus hábitos de higiene e do seu nível de vida e a industrialização, cedo tornaram escasso um abastecimento que se melhorara grandemente e que se julgou ser suficiente por largos anos.
A história da captação, adução e distribuição de água de que a cidade tanto precisa, deve repartir-se por 4 épocas, perfeitamente delimitadas:
1) Dos primórdios da Nacionalidade ao reinado de D. João V, os habitantes abastecem-se de água de cisternas, de poços ou de fontes. (Era do Chafariz de El-Rei).

2) Do segundo quartel do século XVIII aos meados do século seguinte, passa a água a ser aduzida dos arredores da cidade (região de Caneças e Belas) e continua a ser tiradas dos chafarizes distribuídos por toda a área da cidade (Era do Aqueduto das Águas Livres).

3) A partir do reinado de D. Pedro V e com a criação das companhias concessionárias, inaugura-se a época da distribuição por encanamentos que levam a água diretamente ao domicílio do consumidor, ao mesmo tempo que surge a necessidade de captar aos Olhos d’Água do rio Alviela, a cerca de 120 Kms de distância, um muito maior caudal (Era do canal Alviela).

4) Com a outorga do contrato de 31 de dezembro de 1932, inicia-se o aproveitamento, primeiro das águas aluvionárias do vale do Tejo e, depois, das próprias águas superficiais deste rio, o que obriga à construção de um novo adutor, com cerca de 60 Kms de comprimento (Era do canal do Tejo). Fonte: EPAL

Chafariz do Carmo
Localizado no centro do Largo do Carmo, a sua construção teve início em 1769, com as obras do Largo resultantes da urbanização pombalina. Provavelmente segundo projecto do então Marechal de Campo, D. Miguel Ângelo de Blasco, as obras foram concluídas já sob a gestão de Reinaldo Manuel dos Santos. Imediatamente após a sua entrada em funcionamento tornou-se um dos chafarizes mais procurados pelos aguadeiros, dado encontrar-se na paróquia de Sacramento onde residia a maior parte dos mesmos. A Câmara de Lisboa, em Outubro de 1875, chegou a aprovar uma proposta prevendo a demolição do chafariz, ao qual não era reconhecido qualquer interesse, em virtude dos frequentes conflitos entre os aguadeiros e os habitantes dos prédios próximos. Trata-se de um chafariz com uma característica forma de relicário ou baldaquino, cujo bloco fontanário, de 4 frentes, cada qual com a respectiva bica que jorra água para um tanque, é encimado por uma pirâmide composta por 4 golfinhos. Esta fonte surge inserida num recinto formado por 4 pilastras ligadas entre si lateralmente de apoio em apoio e cruzando-se na diagonal, formando um quádruplo pórtico. A rematar este conjunto surgem pirâmides no topo das pilastras e uma urna ao centro. Destaca-se, ainda, o escudo nacional, coroado, num dos arcos. (Fonte: C.M. Lisboa)

Chafariz do Intendente ou do Desterro
O Chafariz do Intendente construído, entre 1823-1824, no Largo do mesmo nome, junto à Fábrica de Cerâmica Viúva de Lamego, manteve essa localização até 1917, quando por exigências do trânsito foi transferido para o presente local, na esquina da Rua do Desterro com frente para a Rua da Palma, daí ser, também, conhecido por Chafariz do Desterro. A ideia e os primeiros esforços para a sua edificação partiram do Intendente Geral da Polícia, os quais vieram a concretizar-se segundo projecto conjunto dos arqs. Henrique Guilherme de Oliveira e Honorato José Correia de Macedo e Sá. Classificado como Imóvel de Interesse Público, traduz um volume paralelepipédico, em calcário branco, servido por 2 bicas que vertem água para os respectivos tanques semicirculares, que enquadram um tanque central rectangular. De inspiração neoclássica, a sua frontaria, valorizada por um conjunto de tabelas repetidas, recortadas e variadas, apresentando na tabela central da série superior a inscrição: AGOAS LIVRES/ANNO DE/1824, surge definida por pilastras toscanas simples e delimitada lateralmente por cunhais de aparelhamento rústico. Sobre a cornija assenta o entablamento rematado, nos ângulos, por 2 pináculos cantonais de base quadrangular, e, no centro, por frontão curvo interrompido por uma esfera armilar, sobrepujada pelas armas nacionais, em tempos coroada. A água deste chafariz era-lhe fornecida pelo Aqueduto das Águas Livres através da Galeria do Campo de Santana. (Fonte: C.M. Lisboa)

Chafariz do Largo do Mastro ou do Campo de Santana
Este chafariz foi inaugurado em 1848, em Belém,no sítio do Chão Salgado, por iniciativa camarária, com projecto do arq. Malaquias Ferreira Leal. Na sua construção foram utilizados elementos escultóricos do Chafariz do Campo de Santana, que nunca chegou a ser construído, nomeadamente 4 golfinhos da autoria do escultor Alexandre Gomes. Por ocasião da Exposição do Mundo Português, em 1940, o chafariz foi retirado do local original e mais tarde, em 1947, reutilizado no Largo do Mastro, ao Campo de Santana. Chafariz elegante, de boa cantaria, em forma de obelisco, que apresenta uma urna de curvas reintrantes e de 4 faces, das quais emerge, respectivamente, um golfinho com a função de bica. A rematar este núcleo decorativo eleva-se uma alta pirâmide haxagonal, estriada, cintada por faixa lisa a um terço de altura, coroada por uma pinha. (Fonte: C.M. Lisboa)

Chafariz da Mãe d’Água (Antigo Chafariz da Praça da Alegria)
Este chafariz data de 1840, altura em que foi transferido do topo superior do desaparecido Passeio Público, actual Praça da Alegria, então designada de Cotovia de Baixo. Contendo águas da distribuição, vindas da Casa da Água das Amoreiras, é alimentado através de uma derivação da galeria, que tendo como ponto de partida a Mãe d’Água das Amoreiras, vinha abastecer o Chafariz de São Pedro de Alcântara. Trata-se de uma construção simples, de pedra aparelhada, formada por uma caixa de água paralelepipédica, delimitada lateralmente por duas pilastras levemente salientes, pontuada por dois amplos janelões, com fortes grades de ferro, dispostos simetricamente no plano frontal do chafariz. (Fonte: C.M. Lisboa)

Chafariz de São Pedro de Alcântara
O antigo Chafariz de São Pedro de Alcântara foi a mais monumental obra das Águas Livres, projectada por Carlos Mardel, que nunca chegou a ser concluída, tendo sido vítima do terramoto de 1755. Manteve-se, no entanto, o arranjo do terreno fronteiro a São Pedro de Alcântara, com a construção da muralha, que, ainda hoje, suporta os jardins do miradouro existente na enorme plataforma destinada a ter ao centro o referido chafariz desaparecido. A actual fonte, localizada no Jardim de S. Pedro de Alcântara, jorra as suas águas para um belo tanque de mármore, de planta recortada, obra do escultor Faustino José Rodrigues. Tanque esse, que veio do Paço Real da Bemposta. (Fonte: C.M. Lisboa)

Chafariz de São Paulo
Desde o início do séc. XVII ao séc. XIX, surgiram várias tentativas para a construção de um chafariz, que abastecesse de água a população do bairro de S. Paulo. Localizado harmoniosamente ao centro do Largo de S. Paulo, rodeado por altos prédios pombalinos e tendo como pano de fundo a igreja do mesmo nome, este chafariz,projectado em 1848, segundo o risco do arq. Malaquias Ferreira Leal, foi inaugurado em 1849. Semelhante a um projecto setecentista para o mesmo local, da autoria de D. Miguel Ângelo de Blasco, tratava-se de um chafariz de obelisco, assente sobre uma plataforma, à qual se acede através de escadaria, constituído por uma pirâmide quadrangular, que se eleva ao centro, encimada por uma esfera armilar de ferro, dispondo de 4 bicas, as quais jorram água através de 4 carrancas, de inspiração renascentista, para os respectivos tanques lobulados. Destaca-se um medalhão com as armas da cidade esculpidas em baixo-relevo, assim como a inscrição: “MARITIMOS”, que identifica a bica, do lado da igreja, como exclusiva para o uso da “gente do mar”, tal como fora pré-estabelecido desde o início da construção do chafariz. (Fonte: C.M. Lisboa)

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